quinta-feira, 17 de março de 2011

The Final Cut - Por trás do álbum

Análise do álbum The Final Cut

Capa do 10º disco do Pink Floyd

     Toda grande banda de rock normalmente acaba por três motivos: o ego de seus integrantes se torna insustentável para trabalhar em conjunto com outros gênios, uma vida desregrada ou desentendimento entre os integrantes. A desintegração do Pink Floyd foi um coquetel desses motivos, gerando um desmembramento desgastante que durou anos. A obra de hoje, The Final Cut, foi parte desta novela, pois foi o último álbum do baixista e grande poeta da banda Roger Waters. Ou, como defendem alguns críticos, um álbum pré-solo da carreira de Waters.

     O álbum, na verdade, se auto-proclama "uma obra de Roger Waters, executado por Pink Floyd". Realmente, Waters compôs todas as músicas (com exceção da musica Not Now John que teve a ajuda de David Gilmor) e, seja pela sua síndrome de superioridade ou pela própria proposta de um álbum melancólico, deixou os outros dois integrantes que restaram da banda bem escondidinhos- quase não há presença de guitarra e bateria, como havia nas outras obras.
     The Final Cut é um álbum conceitual. Álbum conceitual é aquele que tem um propósito além de ser uma coletânea de músicas gravadas em um período de tempo. É aquele que desenvolve um mesmo tema através das músicas, e, no caso deste, o fez muito bem. Gravado em 1982, aborda diversos pontos sobre a guerra, incluindo temas poucos explorados na época, como o estresse pós traumáticos em soldados veteranos, resultado de situações extremas nas guerras

     As primeiras músicas falam sobre a Guerra de Malvinas (1980), onde o regime ditatorial vigente na Argentina tenta tomar a Ilha de Malvinas, que fica apenas a 450 km de sua costa. O Reino Unido, que controlava a região desde o século XIX, revidou mandando o triplo de tropas para defender a terra. Ignorando completamente as questões políticas, Roger Waters se concentra nos valores do ser humano e sua indignação  no tratamento de soldados como meros peões de xadrez. The Post War Dream, faixa de abertura, seria o gemido de agonia de um dos soldados, que termina em uma cédula melódica que se repete em outras músicas do álbum, perguntando "Maggie, what have we done?" (Maggie, o que nós fizemos?), em referência à primeira-ministra britânica da época, Margaret Thatcher, que interveio na Guerra de Malvinas.

     Utilizando um som extremamente melódico exatamente para expressar a frieza das guerras, Waters (me desculpe por parecer dar credito somente a ele, mas os holofotes do álbum estão claramente voltados para ele) às vezes retoma em suas músicas o cenário da Segunda Guerra Mundial, um assunto delicado para ele, pois foi assim que perdeu seu pai - este citado umas três vezes ao longo do álbum. E, para fechar o currículo poético de Waters, uma belíssima combinação de letras utópicas, com um desfecho frio mostrando a desilusão com a sociedade, com melodias e orquestração que penetram a alma. É a fórmula de The Gunner's Dream e Paranoid Eyes, uma das melhores músicas gravadas.



        
Montei um vídeo reunindo algumas partes de todas as músicas, 
para se ter uma idéia de como é o álbum.     




     The Final Cut pode ser considerado a personificação da melancolia. Instrumentalmente, o álbum conta com uma orquestração muito bem planejada, com muito uso de sintetizadores, um piano fantástico e um saxofone que em muitas músicas parece ter tomado o lugar da guitarra só para irritar Gilmour, guitarrista oficial da banda. A guitarra e a bateria, aliás, são muito tímidos neste álbum, mas, quando aparece, é com eloqüência. O ponto é que todos esses instrumentos citados (exceto guitarra e bateria) são tocados por artistas convidados ou contratados, e deixando a impressão de que o nome Pink Floyd na capa não passou de uma jogada de marketing para vender mais.


     Apesar de atualmente ser fácil construir uma boa crítica sobre o álbum, ainda mais baseado na reputação dos percursores do rock progressivo, para a época em que foi lançado foi considerado um erro por muitos. Até o próprio idealizador, Roger Waters, se desapontou: "Foi uma tristeza fazer The Final Cut, mesmo tendo-o ouvido depois e gostado de grande parte, não gosto da maneira como cantei. Consegue-se perceber a tensão louca por todo o álbum. (...) Foi uma época terrível. Nós discutíamos como cães e gatos, começando a perceber ou antes a aceitar que não havia banda". 

     Sabe aquela história sobre surgir algo na hora errada e no lugar errado? Talvez foi isso que aconteceu. Talvez, se Water tivesse o lançado em sua carreira solo tivesse mais sucesso. Ou talvez não. Talvez, se fosse lançado em uma geração mais engajada como de 60, na contracultura, sua mensagem de social seria entendida. Ou talvez não. Em suma, fato é fato, e só resta a nós, mortais, curtir essa obra de arte, e não depender tanto do que há por trás do álbum para apreciá-lo.






5 comentários:

Marcus Schulten disse...

Cara, concordo contigo. Por coincidência (como fã do Pink Floyd), escrevi também no meu blog uma matéria sobre esse disco. Caso quiser dar uma olhada está em
http://pica-pina.blogspot.com/search/label/música?updated-max=2010-01-18T14%3A50%3A00-02%3A00&

mcarrasco disse...

Acho este álbum FANTÁSTICO! Sem mais...

TAYGGER disse...

Um dos melhores da banda

TAYGGER disse...

Um dos melhores da banda

Ângelo disse...

Este álbum é uma das melhores contribuições dos homens para os homens, tem um dos momentos mais belos da guitarra na música homônima, é genial, não deveria ter feito mais sucesso, pois o sucesso (que não é vendagem) não se mede por discos de platina, meu filho de 4 anos ouve e para pra prestar atenção, pergunta sobre a música, quem toca, ele vai ouvir no futuro e espero que meu neto ouça, e siga perpetuando o que realmente vale a pena, daqui a 100, 200 anos ainda será conhecido e eu garanto que 99% das bandas que fazem sucesso $$ hoje serão afogadas nas ondas do esquecimento.