Finalmente chegou o tão esperado momento para escrever sobre a banda que conquistou o Brasil em apenas alguns minutos. Esperei passar um certo tempo para esfriar a bola d'ABanda Mais Bonita da Cidade para que esse post não seja apenas mais um na onda de notícias sobre a banda curitibana. A razão de tamanha visibilidade foi o efeito viral do clipe de Oração, que teve mais de 350 mil acessos em apenas dois dias (18 a 20 de maio) e cativou os ouvintes brasileiros por seu clima de descontração e alegria. "Fofura", simplificam alguns. É interessante notar que essa foi uma das músicas mais recentes da banda postada em seu canal, sendo que alguns datam de dois anos atrás. Apesar desse salto na mídia, a banda, composta por apenas cinco integrantes (não se deixe enganar pelo clipe de Oração!), diz ser genuinamente independente e está trabalhando por conta própria no seu CD, sem nenhum contrato com qualquer gravadora. É claro que essa independência é relativa: a banda tem parceria com o site Trama, empresa que trabalha com o conceito de 'download remunerado' e autoriza o download gratuito para os fãs.
A vocalista Uyara à esquerda e os demais integrantes da banda que encantou o Brasil.
Em uma entrevista ao site do Estadão, a banda afirma que também tocavam em outras bandas e que não havia uma dedicação exclusiva, apesar da banda já existir a dois anos. "Nunca fomos uma banda de tocar todo final de semana", afirma Rodrigo Lemos, guitarrista da banda. Obviamente essa postura mudou com as exposição na mídia, mas essa situação ilustra uma característica importante para a banda: a química. Se as músicas já são bem arranjadas e harmonizadas agora, imagine daqui alguns anos somados ao foco que os integrantes estão dando à banda. E que Deus permita que dure isso tudo.
Quanto às composições, talvez seja, ao mesmo tempo, o ponto mais forte e mais fraco da banda. Mais forte porque surpreende como essas belas (e muitas vezes estranhas) melodias ficaram desmerecidamente tanto tempo sem o público que merece. O tom sombrio de A Balada da Bailarina Torta, a melancolia de Se Eu Corro ou a alegria minimalista de Oração mostram uma versatilidade nas músicas. Também vale citar Canção Para Não Voltar e A Balada Em Contramão como outras músicas que valem a pena ouvir. E qual o ponto negativo nisso? Nenhuma dessas músicas foram compostas pela banda. Ou melhor, quase nenhuma, pois o guitarrista Rodrigo Lemos compõe algumas músicas para sua banda paralela, Poléxia, e a recicla sob o som igualmente alternativo d'A Banda Mais Bonita da Cidade (caso das músicas Aos Garotos de Aluguel e A Balada Em Contramão). O resto das canções são contribuições de amigos, como o artista brasiliense Leo Fressato, que contribuiu com A Balada da Bailarina Torta, Oração e Canção Para Não Voltar. Outros nomes como Troy Rossilho e Luiz Leprevost também aparecem com frequência nos créditos. Será, então, que a carreira da banda estará a mercê de composições alheias? E se decidirem produzir suas próprias, será que a qualidade permanece? São perguntas que só o tempo pode responder.
Enfim, foi um momento oportuno para essa banda aparecer,pois muitos já não aguentava mais ouvir falar de Luan Santana e Cia. sem ver ao menos vestígios de boas novas bandas brasileiras surgirem. Vale lembrar que ainda há bandas brasileiras com qualidade para sucesso nacional que não quererem perder sua genuinidade para fazer parte da música comercial, e a Banda Mais Bonita da Cidade veio para comprovar isso. Que Uyara Torrente, Vinícius Nisi, Rodrigo Lemos, Diego Placa e Luís Bourscheidt continuem com o bom trabalho!
Chris Martin no show do Coldplay, considerados por muitos como o melhor do Rock in Rio 2011
Então é isso. Após 7 dias de shows distribuídos em duas semanas, o Rock in Rio acabou com uma fina camada que separa a satisfação do "poderia ter sido melhor". Poderia ter sido melhor por causa das falhas na equalização do som principalmente no Palco Sunset (que estragou a apresentação dos Móveis Coloniais de Acaju, por exemplo), da distribuição dos artistas na programação (imagina quão melhor seria Stevie Wonder e Elton John no mesmo dia ou Snow Patrl abrindo para Coldplay?) ou dos próprios artistas (vide os shows vergonhosos de Claudia Leitte e Ke$ha). Mas, a despeito das falhas, não dá para negar que essa quarta edição do Rock in Rio no Brasil foi um sucesso. Que o digam as 100 mil pessoas que compunham a platéia, girando as camisas no show exemplar de Skank ou cantando o coro melancolicamente maravilhoso de Fix You do Coldplay. Os hashtags referentes aos artistas tomando conta do twitter e outros memes da net, como o 'beijo' (e coloque aspas nesse 'beijo'!) de Katy Perry no fã de Sorocaba, são bons indicadores da repercussão do evento.
Mas existe um ponto mais profundo que merece ser criticado. Talvez o ponto que desmascare a política podre que está em grande parte das negociações no Brasil. Só haviam três maneiras de assistir os shows aqui no Brasil: pela Rede Globo, de madrugada e com os shows editados; pelo Multishow, filiada da Rede Globo, que transmitiu ao vivo; ou pelo site da Rede Globo. Ou seja, em plena democracia, a Rede Globo tem o monopólio desse evento (e de vários outros), e ainda o transmite porcamente. É claro que, por não atingir o público alvo, o vulgo 'canal 10' não trocaria seu milionário horário nobre pelas apresentações de rock praticamente desconhecidas pela massa. Mas restringir o público para o canal pago não ajuda na satisfação do cliente. Sim, você poderia assistir online, mas com uma qualidade sofrível, muito delay e travando na mesma intensidade. A transmissão mundial que teve pelo Youtube foi bloqueada no Brasil para que a Globo tivesse exclusividade. Por que a MTV, por exemplo, que está a anos no ramo de musica, não poderia transmitir os shows também? Simples: a exclusividade é decidida, basicamente, por quem paga mais. Não poderia ser mais político que isso. Para quem não sabe, os serviços radiofônicos e televisivos são públicos, e o Estado que deve concedê-los aos particulares (ah, então é por isso que fica fácil para tantos políticos terem filiais de alguma emissora). O problema, então, é na lei, pois política de exclusividade sempre se mostrou um problema. Como consumidor, sei que o monopólio limita a qualidade do nosso produto. Como estudante de comunicação, sei que o monopólio distorce muitas 'verdades'.
Não que eu esteja julgando imprudente o modo que a Globo utilizou sua exclusividade, pois qualquer empresa deve explorar ao máximo suas oportunidades. Mas imprudente é a própria exclusividade! O mesmo ocorre em jogos de futebol, copas e olimpíadas. Só agora, após tantos 'galvões buenos' é que a Record transmitirá uma Olimpíada, por exemplo. Sim, a Record, Band e outras emissoras também transmitiram ineditamente o Pan de 2007, mas isso é considerado extraordinário. Extraordinário deveria ser uma só empresa televisiva transmitir tantas vezes seguidas o mesmo evento. Desabafo à parte, espero que, para a integridade do nosso comércio midiático e pelo respeito ao consumidor, as próximas edições no Brasil (2013 e 2015) tenham uma transmissão mais livre. É triste o consumidor depender tanto de política quando o objetivo é apenas o entretenimento.
Roberto Medina (direita), idealizador do Rock in Rio, confirma a edição de 2013 no Rio.
Felipe Nunes é o nome da fera. Com apenas 16 anos ele faz desenhos incríveis e inclusive já publicou em revistas como Mundo Estranho, Runners e MAD. "Desenho desde sempre. Achei uns desenhos outro dia em casa de 98, 99, quando tinha 3, 4 anos. Eram bem legais, sobre um homem que jogava ovos no Capitão Gancho", disse bem-humorado Felipe. "Nos meus aniversários sempre pedia blocos de canson e canetinhas, e gastava tudo em dois dias". Por desenhar tão cedo, ele já passou por vários estilos de desenhos. O atual, arrisco dizer, é o melhor. Mesmo sem deixar de lado a originalidade, Felipe busca muitas influências em artistas brazucas e gringos, como Laerte, Gustavo Duarte, Sica, Cyril Pedrosa e Craig Thompson. Claro que suas influências não se restringem aos outros desenhistas: cinema e música são temas de muitos de seus desenhos. Stanley Kubrick, seu diretor favorito declarado, tem um valor especial para Felipe, tanto que já o homenageou com desenhos do clássico Laranja Mecânica. O foco desse artigo, porém, é na influência musical em seus desenhos, já que se trata de um blog musical. Seu repertório não desaponta: "Sou um fã inegável de Beatles, Led Zeppelin e The Strokes", admite. Também cita Mutantes, Vivendo do Ócio e Radiohead, o que justifica seu estilo indie. "Cara, esqueci de falar de Vespas Mandarinas, Júpiter Maçã e Cidadão Instigado", disse, fazendo questão de abordá-los.
Caricatura dos Beatles que Nunes fez para o Projeto Carambola
Felipe tem, além de seus dois blogs -Nunes Cartuns e Arquivos do Nunes (antigo, ele não o atualiza mais)-, o Projeto Carambola com outros três jovens desenhistas, onde cada um faz em seu estilo um desenho sobre determinado tema (como The Beatles ou os personagens de Coragem, o cão covarde), e todo desenho tem a participação especial de um desenhista conhecido, como Jean Galvão. A descrição do blog diz que são quatro aspirantes a desenhistas. Mero eufemismo, já que essa galera têm um belo dom e, entre eles, Nunes se destaca. Segundo Felipe, os editores das revistas em que publicou não o tratam com tanta mordomia, ao contrário dos outros ilustradores. "'Nossa, você é tão novo!'", diz Felipe sobre a reação deles. "'Na sua idade não desenhava nem metade disso!' Mas sempre acho que é só pra me apoiar, que eles sempre desenharam bem assim".
Tira sobre o Pink Floyd no estilo anterior que Felipe usava. Desenho do ano passado
Pretendendo se formar em Design Gráfico, Filipe quer seguir a carreira de desenhista. Apesar de valorizar mais a estética do que o conteúdo em sua arte, acha que é importante ter as duas perspectivas. "Não é necessário um ótimo desenho pra ser uma ótima tira", diz. Enfim, é sempre impressionante achar artistas tão jovens, que veem na arte não só o sentido da vida mas estão sempre em busca de mais influências. "O importante é não ter preconceito em o que ver e ler. Se você tiver um pé atrás em tudo que ver, não vai conseguir viver", completa ele.
A banda britânica confirmou esta semana que o álbum sucessor de Viva La Vida se chama Mylo Xyloto (como já previam os rumores entre fãs nos fóruns da banda) e será oficialmente lançado no dia 24 de outubro deste ano. Apesar de não sair a tempo de tocar no Rock in Rio 2011, nada impede da banda tocar os singles já lançados, como vem fazendo em outros festivais. A lista de músicas que comporão o disco ainda não foi divulgada, sendo até possível que alguns dos singles oficiais (Moving To Mars, Every Teardrop Is A Waterfall, Major Minus e Paradise - este último será lançado dia 12 de setembro) não estejam no álbum.
É interessante notar que, apesar do nome estranho do álbum, há alguma lógica por trás. A origem do nome parece remeter a um tipo de arte de rua que funde o grafite com a Pop Art, com um teor bem engajado socialmente, o Xylo - http://xylo.me/. É perceptível a semelhança da arte utilizada no álbum e o xylo, como os grafites nos muros, os signos usados quase aleatoriamente e até a fonte da letra utilizada. Então o nome Xyloto provavelmente é uma referência a esse tipo de arte. E Mylo - http://www.artofthestate.co.uk/graffiti/xylo_cctv_swastika.htm-, por sinal, é um artista desse gênero, mas a banda já declarou que não o conhece.
Semelhança entre as artes: à esquerda do Coldplay e à direita, Xylo. Clique para aumentar
O álbum foi produzido por Markus Dravs, Daniel Green e Rick Simpson, com a ajuda do inseparável Brian Eno. Foi divulgado também que a obra sairá em três formatos: virtual, CD e vinil. Haverá também uma edição limitada que inclui o CD, o vinil, fotos exclusivas e um livro pop-up de arte grafite produzido pelo artista David Carter (livro pop-up é aquele formato quase infantil que, quando abrimos uma página, as figuras saltam do livro - veja na gravura ao lado).
Apesar da resistência de alguns em relação ao novo trabalho do grupo, é importante ressaltar que a proposta quase subliminar da obra tem sua beleza. As suas músicas com certeza vem mudando bastante, mas a banda sempre tenta passar algo diferente para o espectador, e essa ideia tem que ser, se não compreendida, ao menos captada pelo público. E esperemos que a banda continue com essas surpresas, apesar de Chris ter dito que "cada gravação é como se fosse a última".
Capa do disco C_mpl_ete, que teve tanto a versão virtual quanto em CD.
Moveis Coloniais de Acaju é aquele tipo de banda que chama muita atenção. Afinal, nove integrantes, um gênero que não se define como ska, rock ou qualquer outro inclassificável, e músicas baseadas em instrumentos de sopro metálico não é algo que se vê todo dia. Mas essa fórmula funciona para a banda brasiliense desde sua formação em 1998.
O fato é que a banda só começou a aparecer na mídia (leia-se mídia alternativa) após o lançamento de seu primeiro álbum de estúdio, Idem 2005, em 2005. Na verdade, a obra foi apenas o suporte para o que seria a marca registrada da banda: as apresentações ao vivo. A batida estranhamente dançante, o esguio e carsimático vocalista André Gonzáles e a química do conjunto de sopro tornam seus shows um espetáculo contagiante. Mas, após ter essa exposição maior no cenário brasileiro -e até arriscar uma turnê na Europa-, a banda precisou mostrar uma face mais séria: um álbum que, por si só, confirme a banda como uma das salvadoras da música alternativa nacional (ou pelo menos de um gênero que não seja o MPB).
Uma das principais mudanças entre o primeiro e o segundo álbum (Complete, 2009) foi a própria união do grupo, segundo o tecladista Eduardo Borém. A saída do principal compositor do grupo, o guitarrista Leonardo Bursztyn, talvez seja uma das razões. Isso porque, assim, os outros integrantes são forçados a compor mais e, muitas vezes, juntos. Para se ter uma ideia, nesse álbum não há a assinatura das canções. O único lado ruim disso é que não há ninguém especificamente para agradecer pela obra-prima Adeus, por exemplo. Diferente de todas as outras músicas de MCA, essa faixa de abertura tem um relaxante e hipnótico efeito de guitarra e teclado, incluindo uma letra simples mas interessante.
A poesia do disco, aliás, tem um estranho temperamento. Se analisada superficialmente muitas vezes só se encontra absurdos. Mas, se lida e relida, fica mais fácil ver seu significado, dividido em dois temas: amor e questões existenciais (talvez resultado da crise de personalidade da banda por conta do gênero quase incalssificável). O Tempo e Decomplica, respectivamente, exemplificam bem essas duas faces da poesia do álbum, e se destacam em relação as outras músicas. Acontece que as letras das músicas são ofuscadas pela forma e gênero tão incomuns da banda, por isso não é o principal atração do CD.
Analisando mais tecnicamente, percebe-se que os instrumentos de sopro tomam com maestria o lugar da guitarra, ora como riff e ora como a própria base da música. Os mais desavisados podem confundir alguns solos de flauta, por exemplo, com um efeito leve de guitarra. Aliás, essa troca de papéis pode ser um tanto incômoda as vezes, pois algumas músicas apresentam uma guitarra improvável - a batida tipicamente indie rock em Lista de Casamento traduz bem essa ideia. Por isso pode-se arriscar dizer que o disco é uma digestão pesada para os primeiros ouvintes. Mas após se acostumar, Móveis Coloniais de Acaju se revela uma banda tão original quanto agradável.
Produzido por Carlos Eduardo Miranda (que já trabalhou com Skank, O Rappa, e atualmente é um dos jurados de Qual o seu talento?), o álbum Complete foi um projeto interessante. A ideia era produzir um álbum virtual, com letras, downloads gratuitos e até cifras, tudo disponível no site da banda -http://www.moveiscoloniaisdeacaju.com.br/complete/-, incluindo videoclipes de todas as músicas. Trama, a distribuidora do disco, cumpriu seu papel devidamente, que deu nesse projeto de certa forma interativo para os fãs. O resultado do disco é quase um consenso nacional: quem era fã ficou mais fã ainda; quem não gostava agora tem o dever de dar o mínimo do reconhecimento que a banda merece.
Quantos jovens músicos já não se imaginaram tocando em rede nacional e, melhor ainda, com grandes nomes da música? Isso é possível no programa Geléia do Rock, que passa na Multishow toda quinta-feira às 22:30h (veja mais no http://multishow.globo.com/Geleia-do-Rock-2011/). Na sua terceira temporada, o programa convocou 20 jovens na média de 20 anos (entre cerca de 1.500 inscritos) para uma experiência imperdível para qualquer músico.
A proposta do programa é mostrar, ampliar e testar o talento dos roqueiros, que contam com suporte de profissionais como o produtor artístico Jorge Davidson. Ás vezes também há a participação especial de outros artistas, como o Marcelo D2, que dá sua opinião e auxílio para a melhoria da banda. Outro ponto interessante que o programa propõe é que não há uma banda fixa até o final do programa, ou seja, estão sempre mudando a formação das bandas até achar a que tem a melhor química.
Mas, como nem tudo é flores, no decorrer do programa há "provas" e exercício entre as bandas (como fazer releituras de músicas bregas para o rock, compor músicas...) e também a eliminação de integrantes, e aí é que está o quê de reality show, que ajuda a prender o telespectador na trama.
Ao final, já existem as bandas formadas e cada uma com sua composição pronta, e é impressionante ver o desenvolvimento e a evolução musical dos integrantes. Não espere, porém, que ao fim do programa a banda tenha uma exposição na mídia, porque essa não é a proposta. Dá até para arriscar que as bandas são, no fundo, independentes.
Ultraleve não venceu, mas fez bonito com a música João.
E quando encontramos as músicas da nossa banda favorita remixadas, desnudadas, repensadas e viradas de cabeça para baixo?
Se a tendência é desgostar e evitar a "desobra-prima", é muito provável que sinta o mesmo com a série de coletâneas The Rio/NYC Series da gravadora Music Brokers, lançada entre 2005 e 2011. Mas a obra não é voltada para esse público, e sim para o mais versátil. Quem mais amaria ouvir The Beatles em Jazz ou Ramones e Guns n'Roses em Bossa Nova (o Jazz genuinamente brasileiro)?
A ideia é exatamente essa, convidar os amantes do Rock a ouvir o melhor do Jazz ou mostrar o universo Punk para os MPB's, sem preconceito. A primeira impressão dos discos já chama atenção. A capa de todos os discos da série segue um padrão, no qual apresenta fotos sensuais das cinturas de modelos. Mas, por incrível que pareça, não é essa imagem que mais marca. Rapidamente esquecemos a provocativa capa para analisar as provocativas releituras, reproduzidas por bandas um tanto desconhecidas, mas talentosas. Veja a seguir comentários sobre alguns dos discos. Links para download ao final do post
Jazz and Beatles (The NYC Series)
Não é a primeira experiência em que uma obra do Fab Four tem uma versão em Jazz. Na coletânea The Smooth Jazz, que teve uma boa repercussão, há um cover fantástico da música Something, dificilmente superável. De fato, essa canção tem muito em comum com esse gênero tão elitista. Mas não é ela, que também compõe o repertório do disco, que toma os holofotes. Day Tripper e Come Together são surpresas indispensáveis, tanto pela diferença da original para o cover quanto pela qualidade do resultado final da canção. As outras 12 faixas oscilam entre clássicos dos Beatles, como Yesterday (a música mais regravada da história) e All You Need Is Love, e outras músicas mais tímidas do grupo, como Honey Pie e Oh! Darling. A qualidade, porém, é digna de um álbum premiado de Jazz. Em Day Tripper a voz da vocalista é o perfeito clichê de Jazz e o baixo tocando a melodia do verso em Hey Jude surpreende como é possível tirar o complexo do simples.
O Punk Rock surgiu como a limpeza do rock, que estava ficando muito complexo em super-produções vide Pink Floyd. Por isso suas músicas são, com respeito, pobres em arranjos e simples na estrutura. Nesse cenário que os Ramones despontaram como a grande inovação. Então, o que leva os produtores a transformar essas canções de três acordes na bem temperada Bossa Nova? A surpresa desse disco está exatamente na "complexalização" das composições, que ganharam notas a mais e arranjos quase cômicos na metamorfose. Para ficar algo mais harmônico, o disco chama o gênero de eletrobossa, ou seja, Bossa Nova com traços de música eletrônico. Foi melhor jeito de abrasileirar I Wanna Be Your Boyfriend e Pet Sematary, que ficou quase irreconhecível. Ramones, Bossa Nova e música eletrônica? Uma combinação bizarramente agradável e prato cheio para os sobrinhos converterem seus tios em admiradores do Rock.
Guns n'Roses é uma banda no mínimo contraditória. Enquadrada no gênero Hard Rock, teve baladas e músicas românticas entre seus maiores sucessos. Mas não é a crise de identidade da banda que vai comprometer a qualidade da admirável iniciativa dessa série de coletâneas. Patience, Don't Cry e Knocking on Heaven's Door não são exatamente surpresas. Suas atmosferas suaves deixam um terreno preparado para os arranjos do eletrobossa, mas o resultado continua, se não no mesmo patamar da canção original, agradáveis. Impagável é a releitura de Paradise City, clássico do rock que carrega os famosos gritos do vocalista Alx Rose. Tais gritos, porém, viram sussurros na versão do disco, alcançando a proposta de renovação as músicas. Resultado parecido acontece com outro hino do rock, Sweet Child O'Mine.
A gravadora lançou mais x discos além desses, com covers de Bossa Nova do Rolling Stones, Bob Marley, Madonna e de Jazz de hits dos anos 70, 80 e 90. Todos são bons, e é óbvio que só comentei especificamente os que mais se destacam. Mas é imperdível, de qualquer forma, ouvir Creep, do Radiohead, ou Wonderwall, do Oasis em formato de Jazz ou as músicas relaxantes do ícone jamaicano Bob Marley em Bossa Nova (apesar da transformação de Reggae em eletrobossa não ser tão marcante).
O interessante, enfim, é notar como essas bandas marcaram e ainda marcam o mundo, sendo sempre alvos de reformas e adequações aos nossos interesses. Vivas ao Rock, mas, antes, ao Jazz também.
Lançado no Parsley, Sage, Rosemary and Thyme (1966), um dos melhores álbuns da dupla Simon & Garfunkel, a música Homeward Bound é um hino a uma vida tranquila.
Composta por Paul Simon, cuja expressividade no mundo do folk é inversamente proporcional ao seu tamanho (1,60 metros), Homeward Bound atingiu o 5º lugar nas lista das músicas mais tocadas da Billboard e assim permaneceu por mais quatro semanas. Desempenho justificável se for analisado algo além da bela melodia que a música apresenta.
Foi a primeira música do álbum a ser gravada (14 de dezembro de 1965). Segundo Simon, ela foi composta durante uma viagem a Liverpool, na Inglaterra. A inspiração da música veio sem muita força: Simon estava em um de seus momentos mais felizes da vida e tinha um cultura inteira à sua disposição. Assim a letra da música foi se costurando à melodia, criando uma bela poesia.
"Estou me sentando na estação de trem/consegui uma passagem pro meu destino". O primeiro verso da música já faz uma referência à Estação de trem de Liverpool, como Simon viria a afirmar mais tarde. E a canção vai se desenrolando na história de um moço que volta para sua casa no campo após se desiludir da cidade ("E todas as cidades parecem a mesma pra mim/os filmes e as fábricas"). Um tanto bucólica, a letra dá ênfase nos conceitos 'fugere urbem' e 'locus amoenus' (fugir da cidade e lugar tranquilo, respectivamente). Tais conceitos visivelmente exemplificados no refrão "lar, para onde meus pensamentos fogem/lar, onde minha música toca/lar, onde meu amor se deita esperando/silenciosamente por mim".
Homeward Bound, que significa 'retorno para casa' é uma música que inspira tranquilidade após um sufoco, e dificilmente divide opiniões sobre sua qualidade. Ironicamente, Simon não a aprecia muito: "Primeiro porque o título não é original", tenta explicar. Mas mesmo assim ele admite o crédito que a música merece: "o que eu gosto nisso é que me traz uma lembrança muito nítida da Estação de Liverpool, das ruas da cidade e do clube onde eu tocava quando tinha 22 anos. É como uma fotografia muito antiga", disse Simon em 1990.
A banda inglesa Coldplay sempre se destacou na arte de álbum, que inclui a capa do CD, os videoclipes, o estilo de se vestir e as apresentações. Seu grande marco da arte de álbum foi o premiado Viva La Vida (2008), onde os integrantes se vestiram como "soldados ao relento" e investiu pesado em suas apresentações, dando um verdadeiro espetáculo visual para os fãs.
No fim do mês de março, a banda anunciou que lançaria um single nesta sexta (03 de junho), mas já havia lançado com antecedência em seu site oficial - http://www.coldplay.com - a letra da música Every Teardrop Is A Waterfall, seguido da arte (com fotografias e a capa do single). A primeira impressão assusta. Quem esperava algo próximo do último single (Christmas Light), no qual a banda se apresentava com um 'quê' circense, realmente se incomodou. Os integrantes estão em um cenário do subúrbio cheio de graffite (e graffitando!), mas com o mesmo desleixo ao se vestir do álbum anterior. Somado à declaração de que "como tocaremos em vários festivais de verão, era bom lançar uma música nova", conclui-se que viria uma música sem melancolia e com alguma coisa diferente. E o que que veio? Um Glass Of Water com elementos cada vez mais pop.
Capa do single, que lançou depois o videoclipe.
Segundo o site oficial, introdução de piano é uma homenagem autorizada da música I Got To Rio, de Peter Allan. O vocalista/compositor Chris Martin só pode estar brincando de roleta russa! Os mais desavisados vão acusar novamente a banda de plágio (ou de falta de criatividade), correndo um grande risco de manchar seu nome mais uma vez. Isso porque Coldplay se envolveu em vários processos de plágio contra suas músicas (Viva La Vida e Clocks, entre outras), muitas vezes injustamente. Qualquer um com a mínima noção de comunicação social sabe que nem sempre a verdade (ou a intenção) que prevalece.
Retomando a dinâmica da música, o estranhamento causado no início pela melodia (que se aproxima muito de um rap) dificulta a identificação dos traços mais comuns de Coldplay. Mas com o tempo, ouvindo duas ou três vezes seguidas, percebe-se a verdadeira intenção de Martin. Parece que quer repetir a fórmula da música Viva La Vida que, com batidas pop, conquistou um público muito maior e se tornou a música mais conhecida deles.
A percepção geral do público foi boa. Os amantes do pop com certeza gostaram. As divergências ficam entre os fãs. Uma grande parte só gostou da música pelo fato de ser do Coldplay, quase como uma obrigação. Não dá para ignorar também que alguns realmente gostaram da música pelo que é. Uma minoria, porém, foi incomodada. Me tomo como exemplo, pois o que eu menos gostaria é que o próximo álbum saísse como uma experiência pop. Não há mal nenhum em um experimentalismo nesse novo gênero (U2 também passou por uma fase eletrônica), mas que eles não se esqueçam de suas origens e nem de seus fãs da música alternativa. A música, para a categoria pop é boa. Mas para o Coldplay, descartável.
But lend me your heart and I'll just let you fall Lend me your eyes I can change what you see But your soul you must keep totally free"
Awake My Soul
A premiação foi concedida no último domingo (22) pela Billboard Music Awards, idealizada pela revista especializada Billboard. A premiação é famosa por reunir vários artistas pop, mas também deixa um espaço para a música alternativa. Foi nessa brecha que a bucólica banda Mumford & Sons, um quarteto inglês que toca um folk com características de country, entrou para brilhar.
O grupo realmente tem meu reconhecimento e uma qualidade única, mas foi uma surpresa sua premiação. Não pelo fato de ser premiado, mas sim pela categoria nos quais foram classificados. A banda recebeu o prêmio de Melhor Álbum de Rock e de Melhor Álbum Alternativo com o disco Sigh No More (2009), uma obra de arte. Também recebeu o de Melhor Banda Alternativa. A primeira impressão não deixa nenhum desconforto, mas quando lembramos o estilo musical da banda, a última coisa que poderia ser é uma banda de rock. Só para constar, os artista tocam violão, banjo, baixo de orquestra e um piano/órgão. A percursão, quando tem, fica por conta do violonista. Na categoria de Melhor Álbum de Rock ainda disputavam Jack Johnson e Linkin Park.
Primeiro e único álbum de Mumford & Sons, Sigh No More
Não contente com a gafe, o evento ainda tinha outra categoria que se encaixaria perfeitamente com o disco de Mumford & Sons: Melhor Álbum de Country. Porém, o vencedor deixa ainda mais revolta, afinal, que diria que a pop Taylor Swift é uma cantora de country? A credibilidade da cerimônia só parece decair, não pela qualidade dos concorrentes, mas da estrutura em si. A má organização nos faz refletir o que faz uma premiação de 2011 premiar um álbum lançado em 2009, caso de Sigh No More. As evidências só reforçam a ideia de que a cerimônia da Billboard é apenas uma máscara, sem credibilidade artística, para a auto-promoção desta.
A despeito desse desconforto, tive uma necessidade de comentar, mesmo que brevemente, esse álbum e essa banda que merecem um espaço maior na mídia. O líder, Marcus Mumford, formou a banda em 2007, e vale ressaltar que os outros três integrantes não são seus filhos. Marcus tem o dom de formar belas melodias e letras reflexivas (vide Awake My Soul), e a sorte de achar os instrumentistas perfeitos que dão às musicas um resultado final surpreendente. O folk-com-quê-de-country se tornou um potente sucesso no mundo alternativo, e assim surgiu o primeiro, e até agora único, álbum da banda: Sigh No More.
As músicas mais famosas são Little Lion Man, Winter Winds e The Cave. Essas seriam o passaporte para se tornar fã da banda. As músicas são um tanto parecidas por seguirem a mesma fórmula: a introdução de melodia no violão, acompanhamento da voz rouca e potente (que Marcus nunca consegue reproduzir nos shows ao vivo), e clímax com todos os instrumentos, numa levada country, com destaque para o banjo. Mesmo assim, percebe-se que o som da banda é único.
Sigh No More realmente mereceu, assim como o grupo, um título de reconhecimento no mundo alternativo. Tão alternativo que os integrantes fazem questão, sem vergonha, de manter um estilo como se fossem de uma vila arcaica, desde o modo de se vestir ao próprio som da banda. Enfim, esperamos que as próximas obras tenham a mesma qualidade.
A cultura pop é uma dos registros mais importante do mundo ocidental. Apesar de haver uma estereotipação muito agressiva, percebemos por meio dela o modo de agir da juventude, suas preferências e ideais, tudo representado através da arte. Como não lembrar do movimento da contra-cultura dos hippies desleixados? Ou não relacionar o cabelo Black Power e os decotes extravagantes dos dançarinos dos anos 80?
Implicitamente, é sobre isso que o livro 1001 discos para ouvir antes de morrer (2008, Editora Sextante) trata. São mais de 900 páginas divididos em seis décadas (de 1950 a 2007), contendo os álbuns mais marcantes, seja pelo aspecto inovador ou pela figura de ícone do artista. A diversidade de obras conta, proporcionalmente, com 90 críticos de renome no cenário internacional, resultando em análises caprichadas de cada disco, mesmo que supérfluas.
Bob Dylan, The Beatles e Michael Jackson aparecem com muitos álbuns diferentes. Mas também não falta James Brown, Amy Winehouse ou Led Zeppelin entre os mais conhecidos.
O livro dá uma grande preferência ao rock, mas também surpreende com o MPB de Caetano Veloso e algumas bandas alternativas sem muito destaque na mídia. No livro há uma gosto muito especial quando se lê sobre uma banda que você gosta, ver qual o ponto de vista do autor, o contexto e até algumas curiosidades sobre o álbum. Porém, é quase óbvio uma falta de sintonia quando se lê sobre um artista desconhecido. Mas essa é a proposta do livro, fazer o leitor conhecer as obras importantes para a cultura pop. Há até as indicações das músicas mais importantes de cada álbum.
Para quem gosta conhecer novas coisas ou é um apreciador da arte, o livro é uma bíblia perfeita. Um dos únicos defeitos está na limitação do rol: como foi lançado em 2008, não há a possibilidade de saber a visão dos autores sobre outras obras dignas de serem incluídas na lista que foram lançadas posteriormente, como Viva La Vida, do Coldplay, ou Angle, do The Strokes.
Para quem tem paciência, clique AQUI para baixar todos os discos do livro.
Após o incalculável sucesso de You're Beautiful (Back to Bedlam), a ponto de ser irritante, James Blunt lançou seu segundo álbum em 2007, All The Lost Souls. Foi uma conquista importante tanto em fatores externos - já não há risco de ser taxado como one hit wonder¹ - quanto em fatores internos - amadureceu a ponto de quintuplicar suas composições próprias, sem ajuda de outro artista. Mesmo assim, grandes sucessos do álbum como 1973 e Carry You Home tiveram co-compositores. Não que isso seja um problema, mas um artista que leva quase todo o crédito do álbum deveria abrir um espaço maior aos seus colegas de trabalho.
É um álbum romântico de um artista romântico. Mas não espere uma boa poesia da obra, que tem apenas Carry You Home,1973 e Annie de melhor para oferecer. As outras faixas tem uma letra tão vaga e remendada que deixa confuso sobre o que realmente é a música. Neste caso, falar sobre um paixão impossível entre a moça e o rapaz, ainda que clichê, seria mais apropriado. Blunt usou e abusou de certas palavras ou conceitos. "On my own" (em minha própria.../próprio de mim) aparece em pelo menos três músicas e o uso da terceira pessoa do plural como sujeito indeterminado ("They want", "They say"...) beiram o conspiratório, contribuindo menos para uma coesão lírica do álbum.
Felizmente, contrapondo com a fraca poesia, as músicas mostram uma boa química da banda e dão o clima certo para as baladas de Blunt. Ainda há um piano (com belos riffs, devo ressaltar) bastante presente em todas as músicas e uma surpresa em relação ao álbum anterior: abriu-se as portas para a guitarra, que foi um exemplo de textura em músicas românticas, como em Annie, casando muito bem com o piano na introdução.
Conforme se ouve o álbum, somado aos pressuposto de que o ouvinte reconhece a certa restrição instrumental das baladas (que por natureza tem uma estrutura simples), o CD surpreende pelo clímax que há em cada música. Precebe-se também estruturas semelhantes nas músicas: introdução melancólica; crescimento gradual com entrada dos outros instrumentos; clímax; desfecho novamente melancólico. Assim as músicas tem um teor muito parecido, o que torna evidente a qualidade da obra, que foi apenas salpicada na mídia com as músicas 1973, Same Mistake e Carry You Home.
All The Lost Souls é o resultado de uma ótima combinação do timbre único e potente da voz de James Blunt com músicos talentosos por trás do álbum. As composições são invejáveis (com destaque para Carry You Home), mas manchada pela poesia fraca. O que a revista Rolling Stone taxou como "baladas esquecíveis" na verdade é uma arte admirável para quem gosta de música romântica - requisito, talvez, que faltou ao crítico da revista.
Veja o resumo do álbum (partes das músicas) para ter uma idéia de como é:
"Os direitos autorais existem para haver um reconhecimento do autor, que se dedicou à certa atividade e espera um retorno."
Quem nunca ouviu uma música e teve a impressão de que já viu em outro lugar? Ou, pior, já ter ouvido um trecho em outra música? Isso, que pode não ter passado de um dejà vu , pode também ser um plágio, crime federal de esfera internacional, coincidência e, por que não, inspiração.
Neste post há análises dessas diversas possibilidades, com vídeos de alguns exemplos de plágios/inspirações feito especialmente para a matéria.
ex. 1. Semelhanças nas músicas
1. Plágio Intencional
Passível de punição, viola os direitos autorais e fere a moral de respeito à propriedade (direitos autorais, pela lei, é um bem móvel). Para o sistema judicial brasileiro, a diferença entre o plágio doloso (intencional) e culposo (sem intenção) é apenas conceitual, mas ambos passíveis de punição.
Esse tipo de plágio indica uma conduta mais grave, pois mostra o desvio de uma moral, não é diferente de um roubo comum. É claro que é muito difícil definir se o plagiador o fez com ou sem a inteção, é algo muito subjetivo. Mas essa divisão de atitudes muito revelam sobre a conduta moral do artísta.
2. Plágio Inconsciente
Quem nunca saiu cantarolando uma bela melodia e não consegue se lembrar a que música pertence? Imagine então que você é um compositor, sua vida depende disso, e você está nessa situação. Não é raro um músico, nesse caso, achar que inventou uma nova melodia, e logo trabalhar isso em uma música.
Esse tipo de plágio é culposo, pois o compositor não teve a intenção de plagiar. Mas culpa, ele teve sim, pois poderia ter feito uma pesquisa mais profunda para ver se já não existia mesmo essa música. Paul McCartney, por exemplo, ao acordar com a melodia de Yesterday na cabeça, demorou meses para trabalhá-la, pois sabia que a chance de ser um plágio inconsciente era grande.
A própria criatividade, para os especialistas, é produto do inconsciente. No processo criativo, apenas na metade do processo que o consciente do ser humano começa a trabalhar. O inconsciente seria "não saber que ouvimos", "não saber que vemos" e "não saber que sabemos". Assim, quando uma melodia vem ao consciente, apenas não sabemos que ela já existia.
Também há casos em que o artista faz uma releitura, por exemplo, coloca os créditos do autor, mas ainda assim é processado. Isso porque, muitas vezes, dar crédito à ele na obra não basta: é preciso uma autorização formal e até taxas de uso da obra.
ex. 2. Semelhanças nas músicas
3. Inspiração
Não há nenhum mal em se inspirar em outras obras, tanto que muitos artistas consagrados admitem inspirações de outras obras. George Harrison, ao compor Here Comes The Sun, admitiu se inspirar no trecho da música Badge, gravada por seu amigo Eric Clapton, para compor o riff principal.
Há uma idéia de que a arte nada mais é que a recriação de outra obra. Ou seja, a inspiração não é uma opção, mas uma fase do processo criativo. A inspiração, por natureza, é mais sutil.
4. Releitura
Tratando-se de uma releitura, é muito difícil recorrer na justiça acusando de plágio. Isso porque, na releitura, há todo um cuidado tanto na autorização quanto na permanência da essência da obra. Normalmente o nome da obra permanece, como acontece nos covers.
Quando a releitura parte de uma obra muito conhecida e/ou antiga, como a adaptação do poema de Camões na música Monte Castelo do Legião Urbana, não há necessidade de indicar a releitura, pois ela já é implícita.
Outro caso de releitura que expressa bem o processo é o da música Hung Up da Madonna, que conseguiu a concessão da gravadora do ABBA para fazer a releitura da música Gimme,Gimme, Gimme, mesmo com o nome da música ser diferente.
5. Coincidência
Campo harmônico é o conjunto de acordes formados a partir de notas de uma escala. Toda música, portanto, tem um campo harmônico. Algumas seqüência de acordes têm a peculiaridade de trazer um certo conforto. A seqüência C, G, Am e F foram usadas em várias músicas lusófonas, como você pode conferir no vídeo a seguir;
ex. 3. Várias músicas com os mesmo acordes
O vídeo traz apenas alguns gatos pingados de exemplos. Mas percebemos que, com a quantidade de bandas que devem existir pelo mundo que já usaram essa sequência, e considerando desde o tempo que o homem se envolve com música, seria impossível não haver algumas melodias, solos ou trechos repetidos na história da música. Devo ressaltar também que não é ilimitada as formações harmônicas e melódicas agradáveis da música.
Portanto, não seria tão surpreendente, ainda mais com um mundo globalizado como o nosso, onde as informações são eternamente registradas, haver músicas tão parecidas de forma tão aleatória.
Mas na Justiça, quem que define se é plágio ou não: Essa é uma questão muito subjetiva. Quando há um processo em que o réu não admite plágio, é o próprio juíz quem decide se é ou não. Caso a parte recorra, há uma Turma Julgadora (composta por vários juízes) que então verificam a decisão do juíz anterior.
Ou seja, não há, no sistema judicial brasileiro, nenhuma comissão especializada para definir a originialidade da obra.
Toda grande banda de rock normalmente acaba por três motivos: o ego de seus integrantes se torna insustentável para trabalhar em conjunto com outros gênios, uma vida desregrada ou desentendimento entre os integrantes. A desintegração do Pink Floyd foi um coquetel desses motivos, gerando um desmembramento desgastante que durou anos. A obra de hoje, The Final Cut, foi parte desta novela, pois foi o último álbum do baixista e grande poeta da banda Roger Waters. Ou, como defendem alguns críticos, um álbum pré-solo da carreira de Waters.
O álbum, na verdade, se auto-proclama "uma obra de Roger Waters, executado por Pink Floyd". Realmente, Waters compôs todas as músicas (com exceção da musica Not Now John que teve a ajuda de David Gilmor) e, seja pela sua síndrome de superioridade ou pela própria proposta de um álbum melancólico, deixou os outros dois integrantes que restaram da banda bem escondidinhos- quase não há presença de guitarra e bateria, como havia nas outras obras.
The Final Cut é um álbum conceitual. Álbum conceitual é aquele que tem um propósito além de ser uma coletânea de músicas gravadas em um período de tempo. É aquele que desenvolve um mesmo tema através das músicas, e, no caso deste, o fez muito bem. Gravado em 1982, aborda diversos pontos sobre a guerra, incluindo temas poucos explorados na época, como o estresse pós traumáticos em soldados veteranos, resultado de situações extremas nas guerras
As primeiras músicas falam sobre a Guerra de Malvinas (1980), onde o regime ditatorial vigente na Argentina tenta tomar a Ilha de Malvinas, que fica apenas a 450 km de sua costa. O Reino Unido, que controlava a região desde o século XIX, revidou mandando o triplo de tropas para defender a terra. Ignorando completamente as questões políticas, Roger Waters se concentra nos valores do ser humano e sua indignação no tratamento de soldados como meros peões de xadrez. The Post War Dream, faixa de abertura, seria o gemido de agonia de um dos soldados, que termina em uma cédula melódica que se repete em outras músicas do álbum, perguntando "Maggie, what have we done?" (Maggie, o que nós fizemos?), em referência à primeira-ministra britânica da época, Margaret Thatcher, que interveio na Guerra de Malvinas.
Utilizando um som extremamente melódico exatamente para expressar a frieza das guerras, Waters (me desculpe por parecer dar credito somente a ele, mas os holofotes do álbum estão claramente voltados para ele) às vezes retoma em suas músicas o cenário da Segunda Guerra Mundial, um assunto delicado para ele, pois foi assim que perdeu seu pai - este citado umas três vezes ao longo do álbum. E, para fechar o currículo poético de Waters, uma belíssima combinação de letras utópicas, com um desfecho frio mostrando a desilusão com a sociedade, com melodias e orquestração que penetram a alma. É a fórmula de The Gunner's Dream e Paranoid Eyes, uma das melhores músicas gravadas.
Montei um vídeo reunindo algumas partes de todas as músicas,
para se ter uma idéia de como é o álbum.
The Final Cut pode ser considerado a personificação da melancolia. Instrumentalmente, o álbum conta com uma orquestração muito bem planejada, com muito uso de sintetizadores, um piano fantástico e um saxofone que em muitas músicas parece ter tomado o lugar da guitarra só para irritar Gilmour, guitarrista oficial da banda. A guitarra e a bateria, aliás, são muito tímidos neste álbum, mas, quando aparece, é com eloqüência. O ponto é que todos esses instrumentos citados (exceto guitarra e bateria) são tocados por artistas convidados ou contratados, e deixando a impressão de que o nome Pink Floyd na capa não passou de uma jogada de marketing para vender mais.
Apesar de atualmente ser fácil construir uma boa crítica sobre o álbum, ainda mais baseado na reputação dos percursores do rock progressivo, para a época em que foi lançado foi considerado um erro por muitos. Até o próprio idealizador, Roger Waters, se desapontou: "Foi uma tristeza fazer The Final Cut, mesmo tendo-o ouvido depois e gostado de grande parte, não gosto da maneira como cantei. Consegue-se perceber a tensão louca por todo o álbum. (...) Foi uma época terrível. Nós discutíamos como cães e gatos, começando a perceber ou antes a aceitar que não havia banda".
Sabe aquela história sobre surgir algo na hora errada e no lugar errado? Talvez foi isso que aconteceu. Talvez, se Water tivesse o lançado em sua carreira solo tivesse mais sucesso. Ou talvez não. Talvez, se fosse lançado em uma geração mais engajada como de 60, na contracultura, sua mensagem de social seria entendida. Ou talvez não. Em suma, fato é fato, e só resta a nós, mortais, curtir essa obra de arte, e não depender tanto do que há por trás do álbum para apreciá-lo.